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terça-feira, 3 de julho de 2018

Safra polpuda

Colheita de laranja começa no Paraná com expectativa de aumento da produtividade; cenário destoa da retração nas principais regiões produtoras

Ricardo Maia/Integrada
A colheita de laranjas começou no último dia 26 com a perspectiva de resultadosmais polpudos no Paraná do que no cinturão citrícola, que engloba São Paulo e o Triângulo Mineiro. A estimativa por aqui é repetir na safra 2018/19 o mesmo desempenho do ciclo anterior, com 1 milhão de tonelada ou 25 milhões de caixas de 40,8 kg, nos mesmos 24 mil hectares, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento). A projeção na principal região produtora do País, por outro lado, é de 288,3 milhões de caixas, 27,6% a menos do que o recorde de um ano atrás e 11% menor do que a média dos últimos dez anos, conforme o Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura). 

A diferença é explicada pela profissionalização do fruticultor paranaense e pela maior influência no cinturão citrícola de problemas climáticos e do greening, principal praga da cultura. Ao mesmo tempo, indica uma tendência ao aumento de rentabilidade dos laranjais, já que os estoques mundiais de suco diminuíram e o Brasil é responsável por ao menos 60% das exportações globais do produto. 

O especialista em fruticultura Paulo Andrade, engenheiro agrônomo no Deral, afirma que dados preliminares indicam um crescimento do VBP (Valor Bruto da Produção) da cultura de laranja no Estado, que voltaria a ser, além da fruta mais colhida, a mais rentável. Tanto que os produtores locais passaram a investir mais na ampliação dos laranjais. "A recuperação e o resgate de novos plantios se deve à tendência mundial de preços, que cai em um ou outro ano, mas se recupera porque se trata de um mercado estabelecido." 

Andrade lembra que a produtividade paranaense é maior pela profissionalização do produtor e que o Estado ampliou a área plantada em 32% nos últimos dez anos, enquanto houve perda de 20% na média nacional. Ele cita o greening e a necessidade de erradicação de pés contaminados como causa para essa diferença, mas vê o Estado com um horizonte promissor na cultura. "Aqui existe uma relação aberta e explícita do produtor com as cooperativas, diferentemente do que ocorre em outros lugares. E as cooperativas estão investindo na citricultura", conta. 

Com problemas
No cinturão citrícola, a situação é diferente. As temperaturas acima da média no fim do ano passado e o baixo índice de chuvas elevaram a taxa de queda de frutos para 17%, segundo o Fundecitrus. Isso com o incremento da severidade do greening doença que, dentre outros danos, acentua a queda prematura de frutos. 

Assim, houve também erradicação de pés contaminados e a área plantada já diminuiu de 430,62 mil hectares em 2015 para 401,47 mil hectares em 2018. Porém, nem mesmo os citricultores paulistas e mineiros enxergam um mercado ruim neste ano, já que a demanda mundial deve ser alta. 

Os Estados Unidos, um dos principais consumidores de suco de laranja e também um dos maiores produtores, enfrenta a infestação do greening na Flórida, principal fornecedor do país. Ainda, o furacão Irma alagou os laranjais por lá, em outubro do ano passado, e prejudicou ainda mais a produtividade. Conforme estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA, na sigla em inglês) deve ocorrer alta de 60% nos embarques do produto brasileiro na safra 2017/18 para os norte-americanos. 

Ganho expressivos

No Paraná, cooperativas e citricultores estão atentos ao cenário. A Integrada Cooperativa Agroindustrial tem incentivado os associados a diversificar a produção e a apostar na laranja. "Devemos fechar a safra 2018/19 com 2 milhões de caixas, porque já temos 1,8 milhões contratadas. E vamos processar de 7,5 a 8 mil toneladas de suco", diz o gerente da indústria de sucos, Paulo Rizzo. 

Ele acrescenta que os problemas climáticos afetam menos o Paraná do que São Paulo, porque o solo por aqui é mais argiloso e retém mais umidade do que por lá, que é mais arenoso. "Nós até tivemos uma redução na safra da variedade pera, que foi compensada pelo aumento nas tardias", explica. 

Assim, a soma da produção menor, dos baixos estoques mundiais e a alta cotação do dólar nos últimos meses apontam para ganhos expressivos. "O valor da caixa de laranja subiu de R$ 10 a 12 em 2014 para R$ 20, na indústria, mas o custo de produção não subiu no mesmo patamar. É um ganho excepcional", diz Rizzo. 

Profissionalização

Um dos produtores de laranja com expectativa de ganhar em produtividade é Sussumo Itimura Neto, da região de Uraí, Norte do Estado. Ele colheu 2,8 caixas por pé na safra passada e, conforme estimativa do agrônomo que o acompanha, deve passar de 3 caixas no ciclo recém-iniciado. "Isso foi pelo manejo, porque investimos muito em adubação, correção e aplicações foliares. Vale a pena profissionalizar a parte técnica", diz. 

Outra estratégia que ele aconselha é a análise de plantas, talhão por talhão, para definir que tipo de insumos precisam ser aplicados. Dessa forma, ele diz garantir uma melhor produtividade em toda a área plantada. 

Aos poucos, Itimura Neto tem substituído a cultura de grãos por laranjais. São 62 hectares produtivos e mais 28 com novas mudas. "Tenho um melhor custo benefício e, acredito que em um médio prazo, o preço da laranja ficará em um patamar bom", conta. O cálculo atual é que o custo de produção seja de 40% da receita total, índice bem melhor do que o que afirma ter com os cereais.

Fábio Galiotto

(Fonte: Folha de Londrina)