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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Atendimento no Hospital Evangélico será mantido após leilão; entenda

Instituição, em Curitiba, atende 35 mil pessoas por mês; 95% dos atendimentos são do SUS. Atualmente, dívida passa de R$ 230 milhões.

Prédio do Hospital Evangélico tem oito andares (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
Com uma dívida de aproximadamente R$ 230 milhões e sob intervenção da Justiça do Trabalho desde dezembro de 2014, o Hospital Universitário Evangélico de Curitiba vai ser leiloado.

Conforme o Ministério Público do Trabalho do Paraná (MPT-PR), o leilão visa pagar a dívida milionária e não deve interferir no atendimento do hospital, que é particular e sem fins lucrativos.

O Evangélico atende a 35 mil pessoas por mês – sendo a grande maioria pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, recebe pouco mais da metade (51%) dos casos de emergência de Curitiba e da Região Metropolitana.

O leilão é a "melhor saída" para a instituição, de acordo com Marcos Brenny, diretor financeiro do hospital e interventor da Faculdade Evangélica do Paraná (Fepar), pertencente ao mesmo grupo.

Marcos Brenny é diretor financeiro do Hospital Evangélico desde quando houve a intervenção da Justiça do Trabalho (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
"Não faz sentido ente público fazer a gestão eternamente, tem que ter um fim. A intervenção valeu a pena, foi a melhor decisão. Os problemas não teriam sido resolvidos. Agora, precisa passar a ser empresa [depois do arremate], a presença do dono na instituição faz toda a diferença", afirma.

Quando houve a intervenção, a instituição tinha uma dívida de R$ 400 milhões.

"Houve uma evolução. A hemorragia foi estancada", conta Brenny.

O diretor financeiro garante que, sem a intervenção, o hospital teria fechado as portas. "Estava se tornando inoperável", diz.

Brenny explica que medidas de gestão na área financeira foram tomadas para que o Evangélico continuasse funcionando.

Entre essas medidas, conforme o diretor, estão a organização no processo de compras para manter o hospital abastecido, a regularização dos pagamentos e a rediscussão de serviços.

"Mexemos na equipe gerencial passa alinhas com as estratégias do hospital", pontua.

De acordo com Brenny, a meta do hospital – desde a intervenção – é promover a continuidade da operação. Ele afirma que o atendimento à população carente é o principal objetivo da instituição.

O hospital

Noventa e cinco porcento dos atendimentos feitos no Evangélico são do SUS. Os outros 5% são referentes a convênios e atendimento particular.

95% dos pacientes do Evangélico são do SUS (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
O hospital é conhecidamente referência no tratamento de queimados. Conforme a instituição, é também referência em cirurgias plástica e bariátrica, transplantes de fígado e rim, neurocirurgia, ortopedia e na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal.

Para o diretor financeiro, a crise que atingiu o Evangélico se deve a problemas conjunturais e internos.

Brenny afirma que a dificuldade conjuntural é a falta de atualização da tabela do SUS que, segundo ele, não é atualizada há anos. Então, o hospital acaba gastando mais por procedimentos do que recebe do SUS.

Há também as complicações internas. Mas, o diretor não quis comentá-las. "O Ministério Público [do Trabalho] é quem investiga", afirma.

Hospital Evangélico é conhecidamente referência no tratamento de queimados (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

Em 2015, o Evangélico aderiu ao Programa de Fortalecimento do Sistema Único de Saúde (Prosus).

"Foi muito importante para o perdão de dívidas, permitiu se livrar de dívidas", afirma Brenny.

O diretor explica que o programa renegocia as dívidas. Se o hospital pagar os impostos em dia, o que ficou em débito no passado é perdoado, conforme o diretor.

Instituído por lei em 2013, o Prosus concede pelo prazo de 180 meses – o que equivale a 15 anos – moratória e remissão de dívidas vencidas até março de 2014, no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Leilão não deve inteferir no atendimento ao usuário do Hospital Evangélico, conforme o MPT-PR (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
"O hospital está doente. Pegamos na UTI, quase morrendo. Foi um Deus nos acuda. Hoje há equilíbrio operacional, se não olhar para as dívidas", diz.

Conforme Brenny, atualmente os salários e as férias são pagos sem atrasos. Ao todo, o Evangélico tem 1,4 mil funcionários.

O diretor ainda afirma que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) tem sido renegociado em dia, assim com o benefício de Instituto Nacional do Seguro Nacional (INSS) recolhido regularmente.

"Os tributos são pagos", relata.

Inaugurado em setembro de 1959, o Hospital Evangélico tem oito andares e 23,3 mil metros quadrados.

Hospital Evangélico atende 35 mil pessoas por mês (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

'Família'

Inês Melo Santos é técnica de enfermagem no hospital há nove anos. Ela define o Evangélico como uma família para os pacientes.

Ela conta que os pacientes buscam ali o que não encontram em outro lugar: atenção, carinho e conforto das equipes médica e de enfermagem.

"Entrou aqui dentro, com uma dor de dedo, a gente não ignora. Todo mundo que entra aqui é importante", afirma Inês.

Para ela, o leilão permitirá que o hospital tenha mais condições para atender.

"O leilão vai ser maravilhoso. Todo mundo está bem esperançoso. Depois de todos os problemas que já passamos, tenho certeza que vamos sair disso tudo. Vamos continuar em frente", diz.

Inês Melo Santos técnica de enfermagem ho Hospital Evangélico, em Curitiba, há nove anos (Foto: Divulgação/ Hospital Evangélico)
Necessidade de investimento

A procuradora Patrícia Blanc Gaidex, do MPT-PR, também acredita que o leilão é a melhor saída para o Evangélico.

"Para que o hospital não fique se arrastando, precisa de investimento. Embora a situação financeira esteja sob controle, não tem dinheiro para coisas básicas", diz a procuradora.

Patrícia conta que, em 2013, o MPT-PR entrou com uma ação civil pública para regularizar as questões trabalhistas.

Na época, segundo a procuradora, havia mais de mil ações trabalhistas que somavam cerca de R$ 80 milhões.

Hospital Evangélico precisa de investimentos (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

Com os atrasos nos pagamentos de fornecedores e dos funcionários, paralisações eram realizadas frequentemente. Com elas, o atendimento ao usuário era prejudicado.

"Em razão dessa situação caótica, houve a intervenção", afirma Patrícia.

O endividamento da instituição aconteceu devido às más gestões administrativa e financeira. "A situação ficou insustentável, resultando nas paralisações que ocorreram com muita força em 2013", relembra.

Também houve, conforme a procuradora, irregularidades dentro do Evangélico que alavancaram a dívida. Elas foram encaminhadas ao Ministério Público do Paraná (MP-PR) e ao Ministério Público Federal (MPF) para serem investigadas.


"Eu avalio a intervenção como um sucesso que permitiu a manutenção do serviço, mesmo com as dificuldades, e a reorganização – com muito esforço – das situações administrativa, contábil e financeira. Embora não esteja 100%, houve um avanço significativo perto do caos que estava", explica.

De acordo com Patrícia, a intervenção tinha dois focos: a regularização da dívida trabalhista e a manutenção da prestação dos serviços de saúde.

À época da intervenção, o endividamento da renda recebida do SUS era de 30% com empréstimos bancários, segundo a procuradora. Hoje, ainda conforme Patrícia, é de quase 30%.


Como fica o atendimento depois do leilão

A procuradora diz que o leilão não deve interferir no atendimento aos usuários.

"O intuito é que não tenha paralisação nenhuma, o serviço vai ser mantido", conta.

O edital prevê que a intervenção continue no período de transição, entre 30 dias a um ano.

"Eu acredito que haverá lances. Grupos nos procuraram dizendo que têm interesse", afirma Patrícia.

A procuradora reitera que a dívida ainda é grande e, por isso, o dia a dia no Evangélico é de muito desgaste: "O serviço tem que ser melhorado".

"Quem comprar, vai ter que ter recursos próprios para fazer investimentos", diz.


Leilão não deve interferir no atendimento aos usuários, de acordo com a procuradora do MPT-PR (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
A dívida

Brenny listou valores aproximados da dívida atual do Evangélico. Eles são referentes ao balanço feito em 31 de dezembro do ano passado.

Trabalhistas: R$ 100 milhões
Com fornecedores: R$ 76 milhões
FGTS: R$ 38 milhões
Impostos: R$ 7 milhões
Débitos alimentares: R$ 10 milhões

Contudo, o diretor financeiro apontou a queda no prejuízo do hospital a partir de 2015.

Em 2015, o prejuízo foi de R$ 140 milhões; enquanto no ano seguinte foi de R$ 54 milhões. Já em 2017, conforme Brenny, o Evangélico teve um lucro de R$ 26 milhões.

Diretor financeiro explica mundanças ocorridas depois da intervemção (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

O leilão

A Justiça do Trabalho lançou, em 15 de junho, o edital do leilão público para a venda de todos os bens e direitos do Hospital Evangélico para quitar as dívidas.

Os itens leiloados envolvem imóveis e objetos do hospital e da Fepar.

O valor mínimo para arremate é de quase R$ 206 milhões Para participar, o interessado deve depositar caução de R$ 5 milhões à Justiça.

O leilão está marcado para 17 de agosto. Já o prazo para que os interessados se habilitem vai até 25 de julho.

Ao todo, o Hospital Evangélico tem 1,4 mil funcionários (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)
Até 6 de agosto, a Justiça deve deferir quem está habilitado a participar do leilão. Veja o edital.

Brenny esclarece que quem arrematar o Evangélico não irá arcar com a dívida da instituição, pois a finalidade do leilão é justamente pagar a dívida.

"O clima organizacional está esperançoso com o leilão, que vai trazer capital para o hospital", afirma.

O hospital foi avaliado em aproximadamente R$ 141 milhões, e a faculdade em cerca de R$ 63 milhões.

Quando houve a intervenção, a instituição tinha uma dívida de R$ 400 milhões (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

Leitos

O Evangélico tem 428 leitos ativos e 141 parados, segundo o diretor financeiro.

Deste total de leitos funcionando, 383 são do SUS e 56 atendem a pacientes particulares ou de convênios.

Ainda entre estes leitos, 39 são UTIs adultas e 25 UTIs neonatais.

Há três centros cirúrgicos – divididos em geral, queimados e obstetrícia – que totalizam 16 salas se cirurgia.

Hospital Evangélico tem 428 leitos ativos e 141 parados, segundo o diretor financeiro (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

Repasses

De acordo com o diretor financeiro, o Evangélico recebe repasses da Prefeitura de Curitiba e do governo estadual.

O valor recebido da administração municipal é de R$ 9 milhões mensais. Esta quantia é destinada para pagar os custos do hospital.

Já o Programa de Apoio e Qualificação de Hospitais Públicos e Filantrópicos do SUS Paraná (HospSus), que garante o repasse do Governo do Paraná, foi renovado em maio, segundo Brenny.

Foram acordados R$ 4 milhões até agosto, quando será realizado o leilão. O valor é usado na compra de material e de medicamentos.

Hospital Evangélcio de Curitiba foi inaugurado em 1959 (Foto: Giuliano Gomes/PRPress)

(Fonte: Portal G1)