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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um futuro que inspira cuidados

Envelhecimento da população vai exigir ainda mais dos sistemas público e privado de saúde, que hoje não conseguem garantir um bom atendimento a todos


O pipoqueiro Benedito Fer­­reira, 68 anos, trabalha há 16 anos na esquina das ruas Visconde de Ná­­car e Comendador Araújo, no Centro de Curitiba. Meta­­lúrgico aposentado, recebe R$ 1,3 mil do INSS e geralmente fatura mais que isso com o trabalho, o que lhe permite manter as contas em dia, viver com algum conforto e, sempre que pode, visitar os irmãos no interior de São Paulo. Mas, como tantos brasileiros em sua idade, Ferreira vê as despesas de saúde consumirem, a cada ano, uma parte maior de seu orçamento.

Albari Rosa/Gazeta do Povo / Benedito Ferreira, 68 anos: gastos dele e da mulher com plano de saúde e remédios beiram os R$ 700 por mêsO plano médico dele e da esposa, a dona de casa Dio­­ne Aparecida, 64 anos, tem mensalidade de R$ 193. Os gastos com remédios – principalmente para tratar a mulher, que tem colesterol alto e hipertensão – são bem mais altos, variando de R$ 400 a R$ 500 por mês.
Se para o indivíduo o passar dos anos impõe gastos crescentes com saúde, para o país não será diferente. Conforme for envelhecendo, a sociedade vai exigir ainda mais dos sistemas público e privado de saúde, que mesmo hoje, com uma população relativamente jovem, não conseguem garantir um bom atendimento a todos.
“Teremos uma dificuldade adicional. Enquanto os países ricos alcançaram um desenvolvimento elevado antes de ter uma população envelhecida, o Brasil caminha rapidamente para se tornar um país com muitos idosos antes de ser desenvolvido, o que vai dificultar a adaptação a essa nova situação”, diz Marcos Ferraz, diretor do Grupo Interdepartamental de Economia da Saúde (Grides) da Unifesp.
Hoje 15 milhões de pessoas têm 65 anos ou mais, o equivalente a 8% da população. Em dez anos, prevê o IBGE, elas serão 24 milhões, ou 11%. E, em meados da década de 2050, um em cada quatro brasileiros será idoso, formando um contingente de 55 milhões de pessoas.


Boa parte da pressão vai recair sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), de quem depende 71% da população de terceira idade, segundo uma pesquisa feita em 2009 pelo IBGE.
O Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) estima que os gastos do SUS vão crescer 44% entre 2010 e 2030, considerando-se apenas o efeito demográfico, ou seja, o aumento do número de usuários mais velhos. Em outro cenário, que supõe que o governo vai ampliar a infraestrutura de atendimento e acompanhar o acelerado ritmo de desenvolvimento de tecnologias médicas, o desembolso vai mais que triplicar.
Para as operadoras de saúde, o aumento dos gastos deve ser mais suave, variando de 44% a 52%, segundo o IESS. Destino de 28% dos gastos dos planos em 2010, os usuários com 60 anos ou mais devem responder por 42% das despesas em 2030 e quase 60% até 2050. “Esse aumento da representatividade dos idosos tem impacto direto sobre a composição dos gastos. A internação, que representava 53% das despesas dos planos em 2010, representará 56% em 2030 e 61% em 2050”, diz Luiz Augusto Carneiro, superintendente-executivo do IESS.
Plano de saúde vai custar mais caro
Uma consequência inevitável do envelhecimento da população é que o plano de saúde vai ficar mais caro, a menos que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) impeça as operadoras de repassar às mensalidades os aumentos de custos.
Enquanto pacientes reclamam de mau atendimento e médicos, de remunerações baixas, as empresas do setor alegam que os reajustes autorizados anualmente pelo órgão regulador não são suficientes para cobrir as despesas causadas, por exemplo, pelas atualizações do rol de procedimentos obrigatórios.
“A agência reguladora tem se armado de artifícios, controlando reajustes e criando normas que garantem muitos benefícios aos usuários, mas nem sempre com estudos para avaliar o impacto dessas normas na sustentabilidade do sistema”, diz Luiz Augusto Carneiro, superintendente-executivo do IESS.
Como os planos individuais têm reajuste regulado pela ANS, muitas operadoras têm deixado de oferecê-los, passando a vender apenas os coletivos, que são contratados por empresas ou associações e têm correção de preço baseada na sinistralidade de cada contrato.
“Com isso, a pessoa ou deixa de ter plano de saúde ou migra para planos cada vez mais básicos. Neste segundo caso, ela continua pagando, mas passa a contar com uma rede de atendimento que cada vez menos se diferencia do SUS”, diz Marcos Ferraz, diretor do Grides/Unifesp.

 
SUS precisa de mais recursos e mais eficiência
O envelhecimento da população torna mais urgente a busca por uma solução para os maiores problemas do SUS: a falta de recursos e a baixa eficiência.
O sistema público tem me­­lhorado, conforme um es­­tudo recente do Banco Mun­­dial. Entre 1990 e 2009, a quantidade de instalações ambulatoriais passou de 2,2 para 3,6 por 10 mil habitantes, e o número de consultas médicas por pessoa cresceu 70%. O Programa Saúde da Família (PSF), que hoje cobre a metade da população, contribuiu para a queda da mortalidade infantil e de outros indicadores. Mas ainda há muito por fazer.
“A mensagem implícita em todo orçamento anual é de que a saúde não é uma questão prioritária. Se comparado ao tamanho da economia, o desembolso do setor público na saúde é quase inelástico. Nos últimos 15 anos, variou de 3,5% a 3,8% do PIB [Produto Interno Bruto]”, diz Marcos Ferraz, do Grides/Unifesp. “A geração de conhecimento e tecnologia de saúde está avançando, assim como a proporção de indivíduos com doenças crônicas. Mas o investimento público em saúde não muda, o que só seria justificável se o sistema estivesse ‘redondinho’, ficando mais eficiente.”
Segundo dados compilados pelo Grides, em 2010 o país gastou R$ 276 bilhões com saúde, o equivalente a 7,5% do PIB. O setor privado arcou com 4% do PIB, pouco mais da metade, e o governo desembolsou os 3,5% restantes. “Podemos comparar esses números com os de outros países que de certa forma apresentam um sistema público de saúde, como França, Espanha, Inglaterra e Canadá. Neles, o desembolso com saúde vai de 9% a 12% do PIB, cabendo ao setor público até três quartos desse total”, diz Ferraz.

Desorganização
Recentemente, o Con­­gresso aprovou a aplicação de 25% dos royalties do pré-sal na saúde, o que deve dar novo fôlego ao setor. Para o Banco Mundial, no entanto, o SUS não sofre apenas de falta de verba, mas também de desorganização e ineficiência. Exemplo disso é que dois terços dos hospitais são muito pequenos e têm taxa média de ocupação de apenas 45%, enquanto as instituições de referência ficam superlotadas. Além disso, quase 30% dos pacientes internados poderiam ter sido atendidos em ambulatórios.
Na avaliação de Luiz Au­gusto Carneiro, superintendente-executivo do IESS, o governo também terá de repensar o próprio modelo assistencial. “Serão necessárias mais instituições de longa permanência ou algum modelo alternativo, pois muitos idosos não terão como se cuidar sozinhos, ou não terão quem cuide deles.”
Medo e obsessão
O medo da velhice é comum no Brasil, entre outras coisas por causa dos baixos valores das aposentadorias, da falta de infraestrutura e opções de lazer para idosos e também dos gastos elevados com medicamentos e planos de saúde. Foi o que constatou uma pesquisa da consultoria Havas. O mesmo levantamento mostra que 71% dos brasileiros acham que a sociedade está obcecada pela juventude, e que 34% fizeram ou fariam cirurgia plástica para parecer mais jovens.
Crônicas
Um dos fatores que encarece a assistência à saúde dos mais velhos é que três quartos deles têm doenças crônicas, como artrite, reumatismo, câncer, diabetes, asma, hipertensão e problemas cardíacos. Males que, ao contrário de doenças ocasionais, exigem atenção e tratamento permanente.

 O Brasil envelhece
Confira as três outras matérias da série de reportagens sobre como o envelhecimento da população mexe com a economia.Um bônus atirado pela janelaOnde os velhos vão ter vezAposentadoria em risco

(Gazeta do Povo)